Pós festa

“Será que alguém se identifica?” – Aquele Por Trás dos Teclados.

Cláudio retornava a pé e apertado daquela festa; também pudera, se disputasse com um camelo sobre quem consegue ingerir mais líquido, venceria disparado. Tomara, sôfrego, todo o álcool que foi humanamente possível de estocar em sua barriga. Males de um “Open Bar” oferecido a alguém sem freios, aquela velha história.

Eis que em certo momento de sua jornada cambaleante até o apartamento que vivia, sentira, escruciante, o lembrete da natureza de que tudo o que entra, deve sair; sua mente bêbada logo processara: não conseguiria chegar ao seu banheiro a tempo, de modo que optara pelo caminho dos porcos, colocando-se a procurar um canto discreto em vias de urinar por ali mesmo.

Todavia, não o faria de modo simplório, de sorte que, seguindo os conselhos de sua consciência alcoolizada, bolara uma forma de disfarce, pegando uma garrafa num lixeiro próximo, para fingir derramar o conteúdo dela, ao invés do da bexiga – muito esperto para um bebum, não?

Assim, pôs seu plano em prática num muro de um condomínio chique situado por ali, pelo caminho. Não notou, porém, que o guarda do local vinha até ele, a passos largos; mas não se desesperou: confiava na astúcia de sua armação. Quando o indivíduo chegou ao seu lado, logo atalhou, buscando dar mais profundidade ao embuste:

Rapaz, essas porcarias de distribuidoras de hoje em dia só nos vendem lixo, não? Olha só meu prejuízo, jogando uma garrafa inteira fora, haha… – Esperava que isso fizesse o homem retroceder.

O guarda, porém, estava inexpressivo e nada disse, inquietando o bêbado, que se pôs a dizer asneiras que faziam sentido apenas em sua mente entorpecida, buscando algum argumento – por menor que fosse – para que o indivíduo o deixasse em paz. Temia ser expulso na base da cacetada.

O falatório, entretanto, não durou muito, uma vez que o outro logo interrompeu:

Por favor, já terminou de mijar? Tô apertado aqui e você tá usando meu canto favorito… Se apresse, que tenho de voltar logo para mais perto da portaria… Odeio quando tem festa de político lá dentro, praticamente nos forçam a não sair daqui nem para tirar uma águinha do joelho…

Embasbacado por ter sido descoberto, sequer ouvira os resmungos do guarda. Limitou-se a sair dali, envergonhado – se é que bêbado consegue sentir vergonha; o mais apropriado, talvez, seria contrariado – apesar de tranquilo por não ter levado cacetada no lombo. Quem sabe, quando sóbrio, esquecesse de tudo aquilo. Talvez até contasse a história aos outros…

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