E não levou os peixes.

“Bem vindos à primeira postagem do blog, caros agregados virtuais! Espero que aproveitem o conto que lhes ofereço a seguir.” – O Autor, obviamente.

Certa feita um esquivo, maltrapilho e arrogante rapaz, dado às pilantragens, acordara de um sonho no qual vislumbrara o golpe perfeito: roubaria, na calada da noite, peixes dos sítios alheios, e piamente os venderia na feira de uma vila próxima, clamando ser seu produto muito honesto, e da melhor qualidade.

Claro, não deixaria em ruínas, a princípio, os tanques que vitimaria, fazendo sua colheita de lugar em lugar, armazenando o espólio numa caixa velha de isopor que pegara do dono distraído de uma quitanda, semanas atrás.

Naquela noite, assim, preparou-se para sua sórdida expedição, estreiando sua pretensa vilania numa propriedade cercada por velhos arames farpados, dos quais avistara, próximo a uma mangueira alta, carregada de frutos alvejados por pássaros famintos, um local no qual poderia se apoiar facilmente e adentrar o lugar.

Tão logo se aproximou, percebera que não haviam cachorros guardando o local, e lentamente se aproximou da represa, cuidando para não tropeçar em algum buraco ou toco, até que chegou à beira d’água, sobre uma barranca. Orgulhoso de si, puxou, de um saco maltrapilho, daqueles usados para carregar cebolas, sua rede, e quando se preparou para arremessá-la, deteve-se.

De canto de olho, percebera, na distante sede iluminada, que um homem de meia idade, provavelmente o dono, andava calmamente pelo pátio, parando em frente a um gramado florido e bem cuidado, ficando um pouco de lado para ele.

Assutado e estático, o rapaz o observara, incrédulo, enquanto, à moda dos caninos em suas demarcações de território, o homem fazer o mesmo, num jato contínuo que brilhava à luz das lâmpadas da varanda. Tão logo assimilara o que via, porém, estarreceu-se novamente, sentindo algo caminhar em suas pernas, subindo pelo interior da calça.

Uma agonia enorme lhe surgiu, mas se esforçou para não reagir, esperando não chamar atenção do homem. Era difícil, já que a coisa subia e o mordiscava, deixando-lhe um rastro de coceira infernal, e se aproximava agilmente de zonas, digamos, mais sensíveis. Conforme o que pareciam minutos se passando, porém, a agonia foi dando espaço, entretanto, a irritação: “este velho não termina de mijar nunca?”.

Estupeficou-se, de súbito, num ímpeto absurdo de gritar, quando o caminhador indesejável entrara por dentro das cuecas, e malfazejo como era, mordeu-lhe no ponto de mais frágil que poderia. Desequilibrando-se de dor, derrubou a rede, que num castigo do destino, caíra sobre um tambor que jazia esquecido na margem d’água, emitindo um baque alto, que certamente atraíra a atenção do mijão.

Num misto de confusão, e agora raiva, o rapaz dos fundilhos mordiscados se indignou ao se dar conta de que o homem, ao se virar alarmado para encará-lo, tinha, na verdade, em suas mãos uma mangueira, e passara todo aquele tempo retirando água dela, ao invés de dos joelhos.

O homem, assim, gritou-lhe:

– “Que faz aí? Fale logo, se não lhe meto bala!”.

– “Senhor, vim aqui humildemente lhe roubar os peixes, num esquema que bolei, mas estou agora com o rabo todo picado e indignado que o senhor não passou este tempo todo mijando. Deixe-me ir, por favor, pois não é justo eu me dar mal mais vezes nesta noite!”.

E foi-se embora empurrando a bicicleta, já que estava impossibilitado de sentar-se nela. Não tão cedo venderia peixes de novo.

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